Os juros do financiamento subiram depois da demissão? O que o contrato diz
Priscila Torteli, OAB/SP 255.231Atualizado em 4 min de leitura

Em resumo
Muitos bancos concedem a seus empregados financiamento com taxa reduzida, vinculada ao contrato de trabalho. Com a demissão, a taxa pode ser elevada ao padrão de mercado. Quando a dispensa partiu do banco, é possível discutir na Justiça o restabelecimento da taxa contratada e a devolução do que foi pago a mais, mas o resultado depende das cláusulas do contrato.
Se você tem financiamento pelo banco em que trabalha e é demitido, os juros desse financiamento podem aumentar. Muita gente descobre pelo boleto: a parcela chega diferente, a pessoa confere, e a conta estava certa. O que mudou foi a taxa.
Por que a parcela muda
Enquanto você trabalha ali, o banco empresta mais barato do que empresta a qualquer cliente. É a chamada taxa de funcionário. Só que ela costuma estar amarrada ao vínculo de emprego por uma cláusula do contrato de financiamento.
Sai o crachá, sai a taxa. O imóvel é o mesmo. A dívida é a mesma. Você é a mesma pessoa, com o mesmo histórico de pagamento.
O que pode ser discutido
Quando a decisão de encerrar o contrato foi do banco, sem justa causa, há fundamento para questionar o aumento: foi um ato do próprio credor que alterou a condição do devedor. Em situações assim é possível pedir:
- a volta da taxa contratada originalmente;
- a devolução do que foi pago a mais desde a mudança.
Não é automático. Há decisões nos dois sentidos, e o resultado depende do que estava escrito quando você assinou: como a cláusula foi redigida, se houve informação clara sobre a perda da taxa e qual foi a forma de desligamento.
Trabalhista ou cível?
A competência varia conforme o pedido e o contrato. Em alguns casos o tema é tratado como condição ligada ao contrato de trabalho; em outros, como relação de consumo. Essa definição faz parte da análise inicial.
O que o contrato costuma dizer
Os contratos de crédito para funcionários costumam ligar a taxa reduzida ao vínculo de emprego: com a saída, a taxa passa para a de cliente comum. A cláusula precisa ser clara e ter sido informada no momento da contratação, como exige o Código de Defesa do Consumidor (arts. 6º, III, e 46).
Na Justiça há decisões nos dois sentidos. Algumas entendem que a mudança da taxa é válida quando prevista no contrato. Outras consideram abusiva a alteração quando a demissão partiu do banco, porque a condição que muda o contrato passa a depender só da vontade de uma das partes, o que o Código Civil proíbe (art. 122).
A portabilidade como saída
Mesmo sem discussão judicial, a portabilidade de crédito permite levar a dívida para outra instituição com taxa melhor, e o banco de origem pode fazer uma contraproposta. A portabilidade é regulada pelo Conselho Monetário Nacional e não pode ser recusada pelo banco de origem.
Antes de decidir, compare o custo efetivo total das duas propostas, não só a taxa de juros.
O que separar
- o contrato de financiamento e eventuais aditivos;
- a planilha de evolução da dívida, antes e depois da demissão;
- os boletos ou extratos que mostram a mudança da parcela;
- o termo de rescisão do contrato de trabalho.
Se a sua parcela subiu depois da demissão, pegue o contrato e procure um advogado de sua confiança antes de renegociar. A renegociação pode consolidar a taxa nova.
Base legal
Este texto tem caráter informativo e não substitui a análise de um advogado sobre o seu caso.
Área relacionada
Rescisão e acordo extrajudicial
Conferência das verbas da rescisão e avaliação de propostas de acordo antes que a quitação encerre a discussão.


